sexta-feira, 11 de junho de 2010

Excertos de Cartas entre amigos (Pe. Fábio e Gabriel Chalita)

"Esperar é reconhecer-se incompleto. É na consciência de nossa incompletude que a espera ganha mais significado".

"A globalização da economia e das informações não significou a universalização da fraternidade. Estamos engatinhando ainda em matéria de respeito".

"Calar é contemplar o que precisa ser mudado para depois lutar, combatendo o bom combate, e depois cantar uma canção nova e aí, então, amar. E calar novamente. Sim, amigo, é no silêncio dos nossos porões que habitam muitas razões".

"Envelhecemos prematuramente pela ausência de um tema. Um tema que nos conduza a viver. E aí sim vem a derrota. As outras são contingências. fazem parte da margem, apenas".

"Só o amor nos autoriza uma aproximação dos calvário do mundo. Ele é o elemento que impede a banalização, pois resguarda, envolve e proteje o sagrado que por trás da dor se esconde".

"A maldade é uma arma que permanece apontada. Há sempre uma pessoa que se dispõe a apertar o gatilho. Vez em quando somos terrivelmente atingidos por ela. É nessa hora que precisamos sobreviver. Tudo dependerá do quanto já estamos, ou não, imunes a seu poder agressor".

"As pessoas erram muito porque refletem pouco. Sofrem muito porque não administram de um jeito certo as causas que as fazem sofrer. Escolhem errado, vivem errado, amam errado. Tudo porque faltou reflexão'.

"A vida ganha novo sentido cada vez que uma boa palavra vem iluminar as varandas da nossa mente".

"Restava-me compreender que razões tantas não traríam razão alguma para uma dor que não tinha o poder de antecipar o tempo da compreensão e da aceitação. Restaria a saudade".

"Vez em quando eu me deparo com colheitas infelizes. Pessoas que descobriram que a pressa não valeu a pena. Correram atrás do mundo que estava distante, mas se esqueceram de vive ro mundo que estava a seus pés".

"Se escolhemos amar, é bem provável que nosso futuro será recheado de saudades boas. Mas se escolhemos negligenciar o amor que podemos oferecer ao outro, é certo que nos restará nas mãos um cesto de arrependimentos e remorsos".

"Tornamo-nos pessoas melhores quando somos capazes de tecer relações verdadeiras. Sem ganhadores nem perdedores. Ceder não é entregar ao outro o troféu da vitória. Longe disso. É perceber que o outro também tem razão. Que o outro existe. Que o outro merece respeito".

"O amor não se preocupa com detalhes para reparar o imperfeito; ao contrário, utiliza os detalhes para fazer perfeito aquilo que deve ser reparado com cuidado. E, com sinceridade, tudo fica mais fácil'.

"É verdade. Um ser humano só pode ser verdadeiramente grande se for capaz de tocar o coração das pessoas".

"Os pais não podem educar os filhos como se os filhos fossem os únicos no mundo. É na divisão da refeição que se ensina a deixar ao outro uma parte daquilo que me daria prazer...É nos detalhes que se forja um caráter".

"Um ser humano só pode alcançara inteireza do que é à medida que se possui. Nascemos indivíduos. Só podemos nos tornar pessoas à medida que nos exercitamos na edificação dos dois pilares: posse de si e disposição ao outro".

O Fura Dedo!


Dia desses, eu, minhas amigas Pólis e Rosi (sabe-se lá Deus como iniciou a conversa...), entrávamos em nossas reminiscências. E eis que surge de nossos quintais a figura folclórica do FURA DEDO.
Para quem viveu a feliz infância dos anos 80 recorda dessa pssoa: roupas brancas, maletinha preta na mão (aqueeela dos médicos antigos) e dentro o maior terror da garotada: infinidades de frasquinhos, lâminas e agulhas de ponta triangular. Era o agente de saúde da antiga SUCAM, que ía de casa em casa extraindo o sangue de "pessoas inocentes". Com aquela "terrível" agulha fazia um furo em nossas falanges e espremia nosso sangue para, posteriormente, colocá-lo em suas vertiginosas lâminas.
Salvo algum engano, era para verificar incidências e possibilidades de contrair elefantíase. Não recordo se, à época, havia algum surto. O que havia mesmo era susto, susto, não, pavor!
Pois quando aquela figura fantasmagórica aparecia na janela (naquele tempo, sem grades), nós, crianças, corríamos feito loucos a nos esconder, temendo a "tão dolorida furada". O maior de todos os detalhes é: ele só passava de noite. Até hoje me pergunto o porquê.
Quantas e quantas vezes minha mãe e meus tios não tiveram que retirar o colchão da cama, porque lá estava eu agarrada feito um macaquinho no estrado dela. Era uma verdadeira Odisseia: puxa a menina daqui, cutuca com a vassoura dali, promessas de porrada de lá, gritos, choros.
Ahhhhhhhhhhhhhh! "Manhêêêê, não quero furar meu deeedooo". Tudo em vão. Claro, eu era resgatada e entregue às mãos daquele "carrasco", que passava um algodão com álcool no meu pobre dedinho e...tchan!
Com certeza, a dor não era tão terrível assim. Era manha de criança.
O mais legal era correr pra casa do vizinho para avisar quem seriam os próximos. E a cena se repetia na casa ao lado.
Naquele tempo, o número de crianças era bem maior. Tínhamos nosso mundinho particular, nossas brincadeiras, risos e mais risos noites afora:
- "Boca de forno!"
- "Forno!"
- "Tirando um bolo!"
- "Jacarandá!"
- "Dá!"
- "Aonde eu mandar!"
- "Vô!"
- "Se não for!"
- "Apanha um bolo!"
- "Raimundinho e Raimundinha!"
Mas do "maldito" fura dedo. Ah, nínguém esquece!

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Cotidiana Ladainha


Todo dia ela faz tudo sempre igual
No lugar do beijo me recebe com um cheiro na bochecha.
Me sorri um sorriso pontual, e dá um "bom dia!", afinal.

Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz pra eu não demorar a almoçar
E me manda tomar meu café.

Todo dia eu só penso que não vou aguentar
Meio dia eu só penso na irritação
Depois penso na vida que vou levar
Se continuar a abraçar esta confusão.

Seis da tarde como era de se esperar
Voltam todos pra casa pra brigar
Ela diz que está sem paz, em um infernão
Ela fala e fala e fala sem parar
E a ladainha volta a ser razão.

Todo dia ela faz tudo sempre igual
E sempre sou eu a escutar
Não casei, não tive filhos e coisa e tal
Mas talvez fosse melhor ter tido, afinal.

Pois os problemas não são meus
Mas a família...que tal?

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Trajetória - Arlindo Cruz/ Serginho Meriti/ Franco

Não perca tempo assim contando história
Pra que forçar tanto a memória
Pra dizer
Que a triste hora do fim se faz notória
E continuar a trajetória
É retroceder
Não há no mundo lei que possa condenar
Alguém que a um outro alguém deixou de amar
Eu já me preparei, parei para pensar
E vi que é bem melhor não perguntar
Porque é que tem que ser assim
Ninguém jamais pôde mudar
Recebe menos quem mais tem pra dar
E agora queira dar licença, que eu já vou
Deixa assim, por favor
Não ligue se acaso o meu pranto rolar, tudo bem
Me deseje só felicidade, vamos manter a amizade
Mas não me queira só por pena
Nem me crie mais problemas
Nem perca tempo assim contando história...

TEMPO (Armando Cajueiro)

Preciso de tempo
Apenas de 85 anos é o que preciso
Não que não tenha força de persuasão
Mas tão somente para reforçar as teorias em práticas
E poder vivenciá-las
Preciso desse tempo para ver meu filho avô
E conversar com este velho a respeito de opiniões em que convergimos
E onde os dois estavam errados
É inútil o conselho
Senão no mesmo tempo de entendimento sobre o tempo
É pretensão achar que nos escutam, ou ainda que concordam
É preciso viver, e para isso é preciso tempo
Quero tempo para poder provar aos que acreditavam que eu era um engano
Que o engano maior foi acreditar que eu não era por falta de tempo
Quero tempo para cozinhar e degustar cada tempero ali colocado
Cada um no seu devido tempo
E sem olhar o tempo
Poder escolher bebida apropriada pelo gosto e vontade
Frio, quente, independente do tempo
E amar a mulher que eu amo
E dentro deste tempo e em tempo
Que ela possa retribuir ao vento todo tempo que tiver
E aqueles que odeiam, invejam, enganam e que tomam tempo
Possam ter tempo para enxergar que sou como o tempo
Não apenas passo, marco
Que eu posso usar todo tempo que me é dado para agradecer
E todo tempo agradecido para entender
Que o tempo não para, não avisa que vai acabar
Apenas passa o tempo

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Céu de Santo Amaro

Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor
Nos invadiu...
Com ela veio a paz, toda beleza de sentir
Que para sempre uma estrela vai dizer
Simplesmente amo você...

Meu amor..
Vou lhe dizer
Quero você
Com a alegria de um pássaro
Em busca de outro verão
Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei

Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei

Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor nos invadiu...
Então...
Veio a certeza de amar você...


(Flavio Venturinni)

terça-feira, 1 de junho de 2010

“Ser significa conviver. A morte absoluta (o não-ser) é o estado de não ser ouvido, de não ser reconhecido, de não ser lembrado. Ser significa ser para o outro e, através do outro, ser para si. O ser humano não tem um território interior soberano, está todo e sempre na fronteira; olhando para dentro de si ele olha para os olhos de outro ou com os olhos de outro.”

Mikhail Bakhtin

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Belle & Sebastian

Ei, aquele talco líquido vai vencer.
A saudade vai me vencer.
E nós perdemos.
Acostumar com tua ausência está longe de significar te esquecer.
O pior é saber que consigo.
Era tão bom...
Agora tudo é estranho.
É estranho ter que te olhar e te tratar como se nunca tívessemos estado juntos.
É estranho te ver passar por mim sem ficar, nem que seja por um minuto.
É estranho sentir teu cheiro de longe.
É estranho esse nó na garganta.
É estranho não mais te perderes entre três ou quatro portas até a minha.
É estranho o sono que vem cedo todos os dias.
É estranha a recusa em ouvir "Tigermilk".
É estranho te olhar e não ver mais nada em teu olhar.
É estranha a certeza de que pra ti tanto fez ou tanto faz.
É mais estranho ainda lembrar de te ouvir dizer "eu te amo" e perceber que foi fato inventado, porque não creio em amor que tão rápido se esvai.
Juro, adoraria que me tivesses feito um mal daqueles que não se perdoa.
Seria mais fácil.
Mas, não! Ainda és aquele mesmo ser que se admira.
Tá bom, aceito.
Desejo que sejas feliz. Isso já sabes.
Fica com Deus.
Adeus.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

É Tempo de Pós-Amor*


Cansei de amor! Quantos filmes, entrevistas, artigos, livros sobre amor cruzaram seu caminho ultimamente? Em uma semana, assisti a um vídeo, vi um filme, li meio livro e participei de um debate na televisão. Tudo sobre amor. E ouvi as pessoas - provavelmente também eu própria - dizerem coisas pertinentes e bem ditas que, de tão pertinentes e repetidas, já se tornaram chavões comportamentais, e parecem fichas de computador dissecadas de qualquer verdade emocional. E de repente está me dando uma urticária na alma, um desconforto interno que em tudo se assemelha a indigestão.


Estamos fazendo com o amor o que já fizemos com o sexo. Na década passada parecia que tínhamos reinventado o sexo. Não se pensava, não se falava, não se praticava outro assunto. Toda a nossa energia pensante, todo o nosso esforço vital pareceia concentrado na imensa cama que erguíamos como única justificativa da exist~encia humana. Transformamos o sexo em verdade. Adoramos um novo bezerro de ouro.


MAs o ouro dos bezerros modernos é de liga baixa, que logo se consome na voracidade mass media. O sexo não nos deu tudo o que dele esperávamos, porque dele esperávamos tudo. E logo a sociedade começou a olhar em volta, à procura de um outro objeto de adoração. Destronando o sexo, partiu-se para a grande festa da coroação do amor.


Agora, aqui estamos nós, falando pelos cotovelos, analisando, procurando, destrinchando. E desgastando. Antes, quando eu pensava numa conversa séria, direita, com a pessoa que se ama, sabia a que me referia. Mas agora, quando ouço dizer que "o diálogo é fundamental para a manutenção dos espaços", não sei o que isso quer dizer, ou melhor, sei que isso não quer dizer mais nada. Antes, quando eu pensava ou dizia que amr é fundamental, tinha a exata noção da diferença entre o fundamental e o absoluto. Mas agora, quando eu ouço repetido de norte a sul, como num gigantesco eco, que "a vida sem amor não tem sentido", fico com a impressão de estar ouvindo um slogan publicitário e me retraio porque sei que estão querendo me impor um produto.


A vida sem amor pode fazer sentido, e muito. É bom que a gente recomece a dizer isso. Mesmo porque há milhões de pessoas sem amor, que viveriam bem mais felizes se de repente a voz geral não lhes buzinasse nos ouvidos que isso é impossível. O mundo só andou geometricamente aos pares na Arca de Noé. Fora isso, anda emparelhado quem pode, quando pode. E Noé. Fora Disso, anda emparelhado quem pode, quando pode. E o resto espera uma chance, sem nem por isso viver na escuridão.


Antes que se frustrem as expectativas, como aconteceu com o sexo, seria prudente descarregar o amor, tirar-lhe dos ombros a responsabilidade. Ele não pode nos dar tudo. Nada pode nos dar tudo. Porque o tudo não existe. O que existe são parcelas, que, eternamente somadas e subtraídas, mutiplicadas e divididas, nos aproximam e afastam do tudo. E a matemática dessas parcelas pode ser surpreendente: quando, como está acontecendo agora, tentamos agrupá-las todas em cima de uma única parcela - o amor - , elas nãose somam, pelo contrário, se fracionam, causando o esfacelamento da parcela-suporte.


Amor criativo é ótimo, dizem todos. E é verdade. Mas melhor ainda é pegar uma parte da criatividade que está concentrada no amor, e jogá-la na vida. Solta, ela terá possibilidades de contaminar o cotidiano, premear a vida toda e voltar a abastecer o amor, sem deixar-se absorver e esgotar por ele. Dedicar-se à relação é importante, dizem todos. E é verdade. MAs qualquer um de nós tem inúmeras relações, de amizade, vizinhança, sociais, e anda me parecendo que concentrar toda a dedicação na relação amorosa pode custar o empobrecimento das outras.


Sim, mo amor é ótimo. Porém, acho que vai ficar muito melhor quando sair do foco dos refletores e passar a ser vivido com mais naturalidade. Quando readquirirmos a noção de que não é mais vital do que comer e banhar o corpo em água fria nem mais tranquilizador do que ter amigos e estar bem com a própria cara. Quando aceitarmos que não é o sal da terra, simplesmente porque a terra é seu próprio sal, e é ela que dá sabor ao amor.




Marina Colasanti




* Esse texto foi reencontrado em um livro que emprestei e me devolveram hoje. è um texto que adoro, concordo e me identifico, porque o que me parece é que para mim é sempre tempo de pós-amor.