quinta-feira, 10 de abril de 2014

As crendices de vovó

Quem não teve a memória preenchida por histórias que a vó contava não sabe o que perdeu.
A Dona Ana resgatava de suas origens bragantinas algumas que nos contava, nos passava, ou nos cobrava. São histórias e crendices e lendas e vícios e mandingas e causos que me foram resgatados pela memória quando, outro dia, vi uma postagem no Face. A historinha era mais ou menos assim:
"- Alô muleque! Passa 10 conto que tô com tua mãe aqui e vô matá
- Vixi, mintuiroso que mainha tá aqui do meu lado.
- É, mas tô com a sandália dela e vô imborcar!"
(clima de tensão)...
Eu ri uns dias seguidos lembrando disso.
Pra quem não viveu a infância dos anos 80 ou mesmo antes disso, explico.
Ter a sandália virada era um terror pros mais velhos. Minha vó nos dizia sob forte ameaça: "Se não desvirar a mãe morre!!". Era sério. E poderia ser fatal.
Como naquela época respeitar os mais velhos era praxe, todos obedeciam e a mãe vivia longos anos.
Outra: entrar ou deixar em casa  a sombrinha/ guarda-chuva abertos também era prenúncio de morte da mãe (mau agouro). Tadinha e Deus-o-livre-e-guarde, ninguém jamais ousou duvidar.
Entre os mesmo amaldiçoados e premonitórios estavam: estourar saco plástico ou balão dentro de casa, passar por cima das penas (se passasse, tinha obrigação de "despassar" - outro dia mesmo levei bronca da mamãe, imagina! Uma afronta! "Não é tu que vai morrer mesmo!" Reclamou cheia de mágoa...), pular macaca (amarelinha) na porta de casa e outros que não lembro no momento.
Portanto, se você perdeu essa época maravilhosa e não quer correr riscos, descrevo abaixo alguns que me vêm à memória para facilitar (e prolongar), sua vida.
- Se a garrafa de café estourar, pode contar que morreu alguém próximo (é mau agouro).
- Se a "rasga mortalha" passar sobre seus telhados com seu grito mortal, é só esperar que morrerá alguém próximo.
- Tomar açaí e comer manga: febre na certa!
- Chupar manga com febre: morte na certa. Responsável também por motivos de dúvidas: "Não é possível que fizeste isso fulano, tu não é doido, não comeu manga com febre".
- Comer o coco de dentro do caroço de pupunha: deixa esquecido  (devo ter comido horrores)
- Acordar e abrir logo a janela: te deixa todo torto. Se pisar no chão descalço também.
- Apontar a lua: faz nascer uma verruga feia e enorme na ponta dos dedos.
- Ao arrancar um dente de leite, jogue no telhado, de costas, pra nascer logo outro no lugar.
- Estudar demais: deixa doido (até que concordo um pouco. rsrsrs). Mamãe me tirava da frente dos cadernos logo após algum tempo de estudo pras provas. Dizia: "Tá bom, não é bom estudar demais, fica doido!"
- Não varra a casa no sentido da porta da rua, só do quintal, pois o contrário é só quando morre alguém, pra levar pra fora o espírito do defunto;
- Se você for um covarde de carteirinha, vá a um enterro e repita 03 vezes aos pés do morto: "fulano leve meu medo, fulano leve meu medo, fulano leve meu medo". Pronto, nasce um super-herói.
Claro, sem contar os mais populares:
- Se perder algo, clame por São Longuinho, com a promessa de dar 03 pulinhos e 03 gritinhos após achar o objeto (mas tem que fazer, senão você perde de novo);
- Negar o que quer que seja a uma grávida, faz o neném nascer com a cara do objeto de desejo;
- Aliás, grávidas não podem colocar chaves nos bolsos, sob o risco do neném nascer com alguma marca que ficará eternamente no corpo;
Bom, como comi coco do caroço da pupunha demais, devo ter esquecido uns tantos. Mas ficam estes por aqui pra lhe ajudar e pra ratificar minha infância feliz.

P.S: ninguém na minha família morreu, ficou torto, nasceu cheio de marcas ou criou verrugas. Claro! Somos obedientes e fizemos tudo certinho.

Bjs

sexta-feira, 28 de março de 2014

Quando o sofrimento bate a nossa porta

A verdade mais genuína dos últimos meses é que têm sido tempos difíceis...
No início do ano,  a notícia de que uma grande amiga foi diagnosticada com CA, em seguida, um amigo de escola sofre acidente de carro e fica em coma no Hospital Metropolitano. Dias depois outra amiga liga e diz que a filha de apenas 17 anos tem um cisto de proporções gigantescas está instalado em seu útero e terá que ser retirado junto com o o útero, deixando-a estéreo. Distancia-se um mês dessas notícias e a mãe de outra grande amiga sofre AVC e falece 3 dias depois de dar entrada na UTI.
Eu desabei.
Sentir todas as dores ao mesmo tempo. Sofri. Sofri pelo CA diagnosticado, pelo coma, pela esterectomia, pela morte com umas dor inexplicável. Como se eu tivesse passado pelo sofrimento.
Meu amigo continua em coma, apesar de ter saído da UTI passa por estado vegetativo...mesma idade que eu, futuro e saúde mental incertos.
Mas o que mais doi, o que ainda me tira o chão, o sono e a razão é o mal do século, batizado por pesquisadores de câncer e especificado por mieloma, degenerativo, incurável, inclemente e impiedoso. Esse que, aos poucos e dolorosamente tá arrancando minha amiga tão cheia de vida e caráter de mim.
Não blasfemo, mas questiono: por que, meu Deus?! Sei que ainda sou muito miúda pra entender Teus propósitos, mas sou enorme pra sentir  essa dor que lateja em meu peito; que me faz clamar por Ti, Senhor, e pedir piedade por ela, que chegou na minha vida de maneira sorrateira e se instalou como uma posseira no meu coração; que fez de mim sua amiga, confidente, conselheira, "chefe" (como ela carinhosamente chama). Não tem maldades, Senhor! Ajuda a qualquer filho Teu despretensiosamente. Sorri de verdade, olha nos olhos de verdade e tem sonhos grandes: quer ser Juíza e, cursando o 8º período de Diretito, teve que ter forças pra ir até a faculdade e entre lágrimas trancar sua matrícula, porque sua mente e suas pernas já não respondem às suas vontades.
A quimioterapia tem sido um fardo enorme pro seu corpo magro, enfraquecido. Efeitos colaterais desumanos demais, crueis demais pra uma pessoa que só precisa viver, meu Deus!
Estou em frangalhos. Meu muro desabou e eu já chorei tudo o que podia; demoro a dormir com o pensamento nela: tá sentindo dor? Comeu? Dorme bem? Vai amanhecer...
Quero forças, Pai! Como gostaria que os que amo não sofressem, que tivessem vida, que não faltasse amor, que ficassem bem.
Cuida de mim, meu Deus! Estou fraca, estou triste, não estou em paz.
Te peço.



quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O Canário e o Passarinho

Foi notícia do Jornal Hoje neste dia:
Um passarinho ficou preso no alto de um poste por linhas de pipas por três dias. Populares chamaram os bombeiros e a central de energia da cidade (que agora não lembro qual).
O passarinho sobreviveu porque um canarinho levava comida no bico diariamente ao passarinho. Tão logo foi resgatado um dos moradores, com todo o cuidado, tratou de retirar a linha enrolada nas patinhas do passarinho. Outro levou o bichinho a um veterinário onde, provavelmente, recebeu os devidos cuidados, pois a matéria foi até aí. A matéria, não eu.
Este caso seria tema para, pelo menos, uns três contos: sobre amizade, sobre solidariedade, sobre amor ao próximo...
Há dias minha amiga me pedia um texto para o Face, pois ainda não havia conseguido cestas básicas suficientes para serem doadas no natal. Coisa que fazemos há cinco anos a crianças que são assistidas pela Pastoral da Criança da localidade de Outeiro, local bastante carente de nossa cidade. Mas nada de vir a inspiração que, depois do jornal, agradeci ao canarinho.
Fiquei tão emocionada com o gesto do bichinho, aliás, com todos eles: com a lição de resiliência do passarinho que tranquilo esperava pela comida que lhe era oferecida na boca, enfrentando, sol e chuva por três dias; com a lição de amizade do canarinho (pra mim, personagem principal da história) que diariamente dividia com o próximo o seu pedaço de pão; com a demonstração de cuidado do morador que, cuidadosamente, cortou e desenrolou o fio das patinhas; com o zelo do agente de energia que "perdeu seu tempo" colocando uma escada e indo até o alto do poste resgatar o bichinho e com aquele que também doou seu tempo para ir atrás de um veterinário para cuidar da ave.
As pessoas deviam se inspirar nesses personagens da vida real já que o mundo anda tão do avesso e tão avesso. Mas não vou dissertar sobre isso, quem tem consciência e pingo de noção sabe muito bem o que é viver neste mundo, neste país egoísta.
Eu desejo ser canarinho, quem sabe assim, quando talvez me encontre na condição de passarinho, não encontre o exército do bem pra me salvar.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Chutando o balde

Rola no You Tube o vídeo de uma americana que editava vídeos para uma importante empresa daquele país. Cansada do chefe que se preocupava mais com a quantidade dos views e com a quantidade de vídeos produzidos, ela, às 4h30 da manhã, ainda no trabalho, resolveu gravar o vídeo abaixo pedindo demissão.

e

Aposto que você já teve vontade de fazer o mesmo.
Eu fiz!
Há exatas 1 semana e 5 dias, eu fiz. Depois de longos e quase intermináveis 14 anos, eu fiz!
Com contas a pagar e com futuro incerto, eu fiz!
E agora? Você deve estar se perguntando. Agora eu vivo!
Foram anos e anos dedicados a uma família inteira: avó, pai, mãe e filhas. Uma relação que ultrapassava o profissionalismo e beirava a intimidade. Era aí que residia o problema. Eu, além da profissional, era a babá, a secretária particular, a redatora, a professora, a office girll, a confidente, a escrava. E como sempre acontece, você é prestativo e acaba sendo confundido com a Anastásia.
Cresci, é bem certo. Hoje tenho fígado e fôlego pra trabalhar na NASA, pois não havia missão, ainda que espacial, que não fosse executada. Dava-se os fins, jamais os meios. a lei era: TE VIRA!
Adeus piano!!! Adeus corcunda!!!
Larguei o expediente no meio, peguei a bolsa e disse: ADEUS! Me dispus a voltar lá e repassar o serviço, já que era detentora de pastas, documentos e senhas que nem mesmo os chefes tínham. Estava resolvendo problemas que ainda não haviam chegado ao destino final...mas eles recusaram ajuda, estão magoados....tadinhos...
Engulam! É hora do processo reverso. É a vez de vocês ficarem putos comigo, nervosos, como mil vezes fiquei com vocês e tive que comer farinha pra desentalar a espinha da garganta, já que precisava do meu salário.
Está tudo certo. Relação de troca perfeita. Relação de prostituição: dei e recebi. Estamos zerados
Estou imensamente feliz. Nossa!! Outro dia postei um texto sobre o caminho de volta.
A gente corre tanto, trabalha tanto, pra ganhar mais e gastar mais e vai perdendo e se perdendo da vida aos poucos.
A maioria dos poetas e pensadores já escreveram sobre isso. Sobre essa rotina que nos engole feito nuvem de fumaça que você não sabe pra onde correr. Sobre a dureza das rotinas.
Estou feliz! Chutei pro gol e corri pro abraço.
Caminho todas as manhãs. Voltei a estudar e, olha que maravilha, tenho mais tempo pra prestar atenção nas histórias que minha mãe conta, nas gracinhas que minha sobrinha diz e faz. Tenho mais chance de ver a luz natural, já que no meu antigo local de trabalho eu não tinha ideia nem se a chuva havia caído, hermética que vivia em uma sala de ar condicionado, onde entrava pela manhã e saia exatamente todas as noites, por vezes com o almoço ao lado do teclado e uma h-pylory no estômago.
Quer que eu te diga: NÃO VALE A PENA.
É como o crime. NÃO COMPENSA
Hoje recebo o título de ingrata, mal agradecida
Eu cho-ro!
EU NÃO QUERO TER RAZÃO! EU QUERO É SER FELIZ!!!



sexta-feira, 19 de julho de 2013

O segredo da felicidade

Pode não ser pra você, mas é pra mim
O segredo da felicidade É SE SENTIR CONFORTÁVEL.
Absolutamente nada que me cause incômodo ou desconforto me deixa chegar perto de ser feliz.
Olhando para as coisas mais banais e indo até as mais complexas, vejo que o segredo é sempre o conforto, seja do corpo, seja da mente, seja da paz de espírito.
Se um sapato é lindo, mas aperta, eu necessito do conforto e logo descalço. Se aquele carinha é lindo, mas quando abre a boca bosteja, eu sinto aquela indisfarçável vergonha alheia e me afasto. Se falta dinheiro pra pagar as contas e deposito o mínimo no cartão de crédito, eu logo aperto por outro lado pra não me tornar conhecida dos malfadados SPC e SERASA. Se o ambiente no trabalho é hostil, eu tento reinventar a forma com que olho pra ele, com que me relaciono com as pessoas desse convívio, com que realizo minhas tarefas diárias. Se meu relacionamento com um amigo ou com um amor não me deixa à vontade e para isso eu tenha que usar disfarces ou fingir que tudo caminha na mais perfeita harmonia, eu os deixo partir ou eu mesma me vou. Se o corte ou a cor do cabelo não me satisfaz, eu mudo, pinto, recorto, enfeito, molho, ajeito. O que não dá é pra não se sentir confortável! Sentir-se confortável é condição indispensável pra uma vida feliz.
Experimente.
"Eu pago qualquer preço pela minha paz!". Essa sempre foi minha frase de vida e pra conseguir isso eu necessito estar confortável, em paz comigo mesma e com as coisas e pessoas que me cercam. Por isso, sou adepta ao desprendimento, ao deixar partir o que não é pra ficar, ao pular etapas se preciso for. O que não dá é pra fingir que tá bem e deixar aquela espinha engatada na garganta, aquela pedrinha dançando debaixo dos meu pés calçados, aquele zumbido de um mosquito inconveniente nos ouvidos. À exceção da morte, pra tudo há solução. Repito: o segredo é se sentir CONFORTÁVEL.

domingo, 30 de junho de 2013

O caminho de volta

Já estou voltando. Só tenho 38 anos e já estou fazendo o caminho de volta. Até o ano passado eu ainda estava indo. Indo morar no apartamento mais alto do prédio mais alto do bairro mais nobre. Indo comprar o carro do ano, a bolsa de marca, a roupa da moda.

Claro que para isso, durante o caminho de ida, eu fazia hora extra, fazia serão, fazia dos fins de semana eternas segundas-feiras. Até que um dia, meu filho quase chamou a babá de mãe!

Mas, com quase quarenta, eu estava chegando lá. Onde mesmo? No que ninguém conseguiu responder, eu imaginei que quando chegasse lá ia ter uma placa com a palavra "fim". Antes dela, avistei a placa de "retorno" e nela mesmo dei meia volta.

Comprei uma casa no campo (maneira chique de falar, mas ela é no meio do mato mesmo). É longe que só a gota serena. Longe do prédio mais alto, do bairro mais chique, do carro mais novo, da hora extra, da babá quase mãe.

Agora tenho menos dinheiro e mais filho. Menos marca e mais tempo. E não é que meus pais (que quando eu morava no bairro nobre me visitaram quatro vezes em quatro anos), agora vêm pra cá todo fim de semana? E meu filho anda de bicicleta, eu rego as plantas e meu marido descobriu que gosta de cozinhar (principalmente quando os ingredientes vêm da horta que ele mesmo plantou).

Por aqui, quando chove, a Internet não chega. Fico torcendo que chova, porque é quando meu filho, espontaneamente (por falta do que fazer mesmo) abre um livro e, pasmem, lê. E no que alguém diz "a internet voltou!" já é tarde demais porque o livro já está melhor que o Facebook, o Twitter e o Orkut juntos.

Aqui se chama "aldeia" e tal qual uma aldeia indígena, vira e mexe eu faço a dança da chuva, o chá com a planta, a rede de cama. No São João, assamos milho na fogueira. Aos domingos, converso com os vizinhos. Nas segundas, vou trabalhar, contando as horas para voltar.

Aí eu me lembro da placa "retorno" e acho que nela deveria ter um subtítulo que diz assim: "retorno – última chance de você salvar sua vida!" Você provavelmente ainda está indo. Não é culpa sua. É culpa do comercial que disse: "Compre um e leve dois". Nós, da banda de cá, esperamos sua visita. Porque sim, mais dia menos dia, você também vai querer fazer o caminho de volta.

Téta Barbosa é jornalista, publicitária e mora no Recife.
Enviada por: Suelen Caroline Block

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Excelentíssima Senhora Presidente,

Vamos ter um a parte...
Como a senhora pode ver, a coisa está feia pro seu lado e linda pra quem acredita em sonhos. Sim, é um sonho ver meu país acordando; ver nosso povo na rua lutando por algo que nem deveria lutar, já que é direito senhora presidente. Mas a senhora, que é de uma partido (dito) comunista deveria estar de pé, aplaudindo os filhos de nossa pátria amada.
Vamos deixar as formalidades de lado e falar de igual pra igual já que, dizem, a senhora também é brasileira. Sabe o que é, maninha, o povo tá cansado de sustentar vocês e comer, dormir e ter saúde e educação precárias enquanto vocês mamam a lá vonté com os impostos que nos cobram, com o dinheiro que nos roubam. A guerra é muito injusta: minha vó, meu pai e minha e minha mãe sempre me fizeram devolver o que não era meu, inclusive troco a mais. Suaram muito suas camisas pra que eu tivesse o mínimo de educação e eu tive, mas quando cresci fiquei decepcionada ao saber que não eram todos que tinham esse direito...e um dia eu acabei sendo vítima do país sem educação que vocês criam: fui roubada, assaltada e até mantida refém. Veja só! Pudera, né Dilma? Seu país não tá preocupado com desenvolvimento, e daí que essas coisas acabam acontecendo.
Vou te contar outra, veja como sou privilegiada: tenho marcado consultas regularmente e tenho sido atendida  a contento pelos médicos que procuro. Não, deixa de graça, Dilma! Claro que não é no SUS, eu pago meu plano de saúde, mas não deveria, né?! Já que saúde também é obrigação do estado segundo a tal da Constituição. E por falar nisso, essa tal aí, assim como o seu governo, é uma piada de muito mal gosto.
Ah, tenho uma dúvida: por que um político ganha um salário milionário pra trabalhar 3 dias na semana, tem direito a motorista, vale-alimentação, carro com combustível pago por nós, auxílio moradia, auxílio terno (tadinho, com o que ganham não dá pra comprar), 14º, 15º????? Ele trabalha tão pouco, não tem graça ganhar tudo isso enquanto o pedreiro daqui de casa não ganha nem a fração e encara o sol de Belém.
E por falar em sol, aqui é bem quente, né Dilma, tu já estiveste aqui, mas olha, vou te contar uma coisa, a situação no Nordeste é de comover o mundo inteiro, menos a senhora, que me contaram as boas línguas, doou arroz em toneladas para Cuba enquanto os nordestinos aqui almoçam xique-xique e tomam água barrenta. É verdade, não é mentira não. Tu sabes que o povo aqui aumenta mas não inventa. A propósito,  maior que os fatos contados pelo povo são os impostos cobrados pelo governo. "Crendeuspaiavimaria", como aumentam! E o retorno, que é bom, néca de pitibiribas! O retorno só rola pra vocês, que engordam suas contas às nossas custas.
Veja bem, dizem por aí que até que o teu governo não é dos piores. Tá vendo como vocês nos acostumaram mal, estamos nos contentando com migalhas e nos transformando num país de merda. Vou te dar uma dica: tu tens que ser excelente, mulher! É tua obrigação! Tu és nossa funcionária! A gente te paga (e muito bem) pra isso! Do contrário, tu vais ficar aí recebendo VAIA, maninha, toda vez que tu apareceres em público e,olha, não é legal! Sabe por quê? Porque o cara da FIFA ainda ficou chamando a gente de mal educado. E num é que é verdade, nossa educação anda rasa, nossas escolas não são bonitas como os estádios que tu e o senhorzinho lá mandaram construir. As cadeiras não tem o mesmo conforto, os banheiros. Aliás, cá pra nós, professor tá ganhando mal pra porra. Bora dividir melhor essa renda. E, olha só, tu vais passar vergonha na copa, mulher. Tô te avisando! O transporte público do país que comandas é uma bosta, outro dia mesmo tive de ir comprar um carrinho pra nossa família porque eu só pegava ônibus lotado na ida e, na volta do trabalho, demorava tanto a passar que eu não sei se cansava mais do trabalho ou de ficar em pé na parada do ônibus correndo também o risco de ser surpreendida por aqueles filhos teus e da pátria que não queres, de jeito nenhum, educar.
Ei Dilma, o povo cansou e se eu fosse tu eu ia pra rua também levar pelo menos uma bala de borracha na cara pra ter noção dessa coisa linda que meu país tá vivendo. E só pra fechar: pára, mana, de obrigar a gente a votar. O meu país é livre! Meu Dilma, porque teu, definitivamente, não há mais de ser!

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Despedida...

Quando alteramos nosso destino e abrimos mão daquilo que um dia sonhamos somos severamente julgados, pelos outros e também por nós. Somos tachados de covardes, incapazes e outras coisas pejorativas que geralmente vêm de bocas com línguas grandes e egos inflados.
Na verdade, quando abrimos mão de algo que fez nosso coração vibrar, nosso pulso acelerar e nosso mundo ter mais cor temos que ser muito  mais fortes do que quando nos dispusemos a sonhar. Isso não deixa de ser prova de coragem.
A história começa lá atrás, com uma menina de sorte que morava com a mãe e os dois irmãos na ante-sala da avó materna e fazia com o primo os brinquedos da infância; que dividia com a amiga um par de patins; que estudou em escola particular a vida inteira porque dispunha de uma bolsa integral dedicada aos menos abastados e que nesses tempos de escola estudava com a amiga nos livros dela. Mesmo sendo uma apaixonada por eles não podia ter os seus. Eram caros demais, artigo de luxo indisponível para recursos parcos. E foi assim que a menina aprendeu a esperar e, de certa forma, até a se conformar, pois encontrava na biblioteca da tia, não muito solícita, uns livros que ela  podia ler ali, na presença dela.
A menina vivia envolvida nesse mundo das palavras e desde muito cedo apaixonou-se por língua portuguesa e suas conjugações verbais, suas concordâncias, discrepâncias, análises sintáticas, discursos sintéticos, frases de efeito, textos bem elaborados e até (não contem a ninguém) passagens dos livros de Roberto Shinyashiki; adorava uma brincadeira de escola e sempre ajudava as amigas nas vésperas de provas.
Nasceu o sonho: "vou ser professora"
Faculdade de letras: ok
Especialização em linguística: ok
Durante esse período em que pagou faculdade a menina, agora uma mulher, não conseguia ter seus livros. Nunca dava. Continuavam a ser artigos de luxo.
Depois de formada a menina recebe uma proposta irrecusável de trabalho com um salário que nunca imaginou receber. A menina enlouqueceu e com sua formação sonhada foi...ser administradora.
Comprou livros, comprou livros, comprou livros. Mensalmente era uma par, no mínimo.
Ia e voltava do trabalho ávida, engolindo seu tesouro. Montou uma biblioteca de dar inveja à Universidade Estadual, tudo atual que adquiria em congressos e seminários que não deixou de participar. De zero foi a mais de duzentos. Ganhou uma estante, plantou-a no seu quarto, criou seu mundo. Saiu do emprego anterior e foi gerenciar uma loja de cosméticos e perfumaria.
E a sala de aula? E o sonho da menina?
Passaram-se 7 anos...
Hoje a menina, sem muito pensar, colocou suas gramáticas, seus livros de linguística e seus sonho em duas enormes sacolas plásticas, jogou na mala do carro e deixou com os amigos de faculdade, professores reais de fato e de direito.
Depois que chegou em casa deu de cara com o vazio da estante e alguma coisa na garganta. Despediu-se. Despiu-se. Deixou pra trás...
A menina entende que nem todo sonho se realiza e que livros são úteis demais pra ficarem enfeitando estantes, que é melhor deixá-los com quem realmente vá usá-los. Entende que "tornar o amor real é expulsá-lo de você pra que ele possa ser de alguém" e que um sonho pode ser realizado por outro alguém. E, apesar da dor da despedida, ficou feliz com a certeza de tê-los deixado em boas mãos...

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Quando a honestidade mostra a cara



Na terça-feira (05.04), em meio a um frenesi louco de trabalho, andando de um lado a outro pra resolver coisas, certa hora peguei meu telefone pra ligar e percebi que não tava comigo. Desespero! Em fração de segundos a gente pensa na agenda, nas fotos e...claro, nas parcelas do maldito aparelho que pobre compra em 3.634 prestações. Liguei pros lugares por onde passei e...nada. Liguei pro meu número: "alô! Oi, acabei de encontrar esse telefone no chão, na porta do... e gostaria de devolver"
Nos tempos de hoje, o primeiro pensamento foi: "puta merda! tô lisa! Vou ser extorquida! E agora, quem vai me devolver a troco de nada?"
- Olha, tô no meu trabalho, que fica no endereço....
Mais medo.
- Rodrigo Santos, vai lá por favor! Só pode ser casinha
- Bora lá junto
- Tá beleza!
Chegamos no local informado e lá encontramos...Dona Dirce com meu telefone nas mãos. Abriu um sorriso e imediatamente contou como encontrou o foragido da minha bolsa.
Nada me pediu
Eu, claro, agradeci milhões de vezes e disse que o mundo precisava de gente como ela. Deixei um agrado (não monetário. Como falei, tava lisa) que ela, envergonhada, agradeceu mais a mim que eu a ela.
Palmas para Dona Dirce (clap clap clap) que deu um tapa na cara da minha desconfiança e uma lição que serve para todos.
Dona Dirce não tem Face, mas tem face, tem aquela cara da honestidade que anda tanto em falta por aí. Devolveu-me não somente o celular, mas um fio de esperança.
Dona Dirce, sua linda!