A conversa era mais ou menos essa: "Como assim, consertar punho de rede? Tem como?"

A imagem ainda está muito viva na minha memória...
Quando chegava da escola minha mãe sentenciava: "vai trocar de roupa que tu vais me ajudar a trocar o punho da rede do teu irmão" (ou irmã, ou a minha...). Ela então sentava à minha frente com a rede nas mãos, colocava o pé direito entre as minhas pernas no banco em que eu ficava sentada e iniciava o ofício de tecelã. A cada volta, cabia a mim a "árdua" tarefa de passar a volta de corda pelo dedão do seu pé, formando lenta e perfeitamente uma teia. Ao final, eu precisava segurar firme, entre minhas mãos miúdas, o elo que seria "encapado", a parte que seria dependurada no "S" ou escápula.
Entre um tear e outro, conversas de mãe atravessavam meus ouvidos e eram cravadas na minha memória: histórias, conselhos, puxões de orelha, cobranças, lamentos, músicas ou apenas o silêncio. Eu e ela, ali, no ofício de ser mãe e filha.
Hoje entendo perfeita e metaforicamente o que aquele ato me ensinava: reconstruir o que falta e não destruir ou substituir o que sobrou.
Eu vivi um momento de felicidade intensa ao relembrar desses momentos de simplicidade que muita criança desta era moderna não tem noção da beleza e do quanto eles ajudam na construção do caráter de um ser humano.
Que possamos empunhar mais redes em nossos dias, ter mais tempo de sermos filhos e de nossas mães serem mães.
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Olha Clau...